O consumo nocivo de álcool está associado à maior morbidade e mortalidade, especialmente entre indivíduos com doenças cardiovasculares. Embora o consumo leve a moderado tenha sido historicamente descrito como potencialmente protetor em algumas populações, essa relação não se sustenta quando se considera o padrão abusivo de ingestão alcoólica, particularmente em pacientes com cardiopatia estabelecida.
O estudo do Projeto PROSA, publicado na revista Arquivos Brasileiros de Cardiologia, avaliou mais de 4.000 indivíduos1, incluindo pacientes com doença cardíaca e voluntários sem cardiopatia, utilizando instrumentos padronizados para mensurar tanto o consumo de álcool quanto comportamentos de estilo de vida. O consumo nocivo foi identificado por meio do teste AUDIT-C, enquanto o estilo de vida foi avaliado a partir de um escore específico que considerou fatores como tabagismo, sedentarismo, excesso de peso, ansiedade e depressão.
Os resultados demonstraram que pacientes com cardiopatia e comportamentos de estilo de vida classificados como regulares ou não saudáveis apresentaram maior probabilidade de consumo nocivo de álcool, mesmo após ajuste por idade e sexo. Além disso, o estudo mostrou que melhorias no estilo de vida ao longo do tempo estavam associadas a uma redução significativa do consumo abusivo de álcool, reforçando a natureza dinâmica e potencialmente modificável desse comportamento.
Outro achado relevante foi a maior prevalência de consumo abusivo entre homens e indivíduos mais jovens, enquanto na idade avançada a prevalência foi menor. Esses dados sugerem que fatores comportamentais e psicossociais desempenham papel central no padrão de consumo de álcool em cardiopatas, mais do que aspectos clínicos isolados da doença cardíaca.
O estudo também destaca que o consumo abusivo de álcool em pacientes com cardiopatia pode agravar condições preexistentes, aumentar o risco de arritmias, insuficiência cardíaca e outros eventos cardiovasculares, além de comprometer a adesão a tratamentos e a qualidade de vida. Assim, a avaliação sistemática do estilo de vida surge como uma ferramenta importante para identificar indivíduos em maior risco e orientar intervenções preventivas.
Como conclusão, as evidências indicam que o consumo nocivo de álcool em pessoas com cardiopatia está fortemente associado a comportamentos de estilo de vida desfavoráveis. Mais do que um fator isolado, o álcool integra um conjunto de hábitos que, quando não saudáveis, aumentam significativamente o risco à saúde cardiovascular. A identificação precoce desses comportamentos e a promoção de mudanças no estilo de vida podem contribuir de forma efetiva para a redução do consumo abusivo de álcool e para melhores desfechos clínicos em pacientes com doenças cardíacas.







