As chamadas drogas Z são uma classe de medicamentos amplamente utilizada no tratamento a curto prazo da insônia e de outros distúrbios do sono.1 Esse termo engloba fármacos como o zolpidem, zopiclona e eszopiclona. Originalmente, elas foram desenvolvidas como alternativas aos benzodiazepínicos, com a intenção de oferecer o efeito sedativo-hipnótico com menores riscos de dependência e efeitos colaterais. No entanto, evidências recentes desafiam essa percepção de segurança, sugerindo que o perfil de risco para o desenvolvimento subsequente de problemas com álcool e drogas é comparável entre quem inicia o tratamento com benzodiazepínicos e quem inicia com drogas Z.2
O mecanismo de ação das drogas Z envolve a estimulação seletiva dos receptores GABA-A no cérebro. Esse efeito amplifica a atividade do neurotransmissor GABA, inibindo a excitabilidade dos neurônios e induz o sono.3 Contudo, estudos indicam que essa modulação alostérica dos receptores GABA-A também afeta circuitos neurais envolvidos nos efeitos comportamentais de drogas de abuso, como os sistemas de recompensa e reforço. Esse mecanismo é compartilhado pelo álcool, que também aumenta a atividade do receptor GABA-A, o que ajuda a explicar a potencial transição do uso médico para o uso indevido ou a combinação perigosa entre as substâncias.
O uso concomitante de álcool e medicamentos Z, como o zolpidem, apresenta riscos imediatos e severos. Como o álcool potencializa os efeitos sedativos dessas drogas, o uso combinado pode resultar em sedação excessiva e depressão respiratória. Segundo a FDA, essa mistura aumenta a ocorrência de comportamentos complexos durante o sono, nos quais o indivíduo pode caminhar, dirigir ou realizar outras atividades enquanto está inconsciente (sonambulismo), sem memória posterior do evento (amnésia). Por isso, atividades que exijam atenção plena devem ser evitadas, e a mistura com álcool é contraindicada.4
Além dos perigos imediatos da interação, novas evidências apontam que o próprio início do tratamento com Zolpidem pode ser um ponto de virada para a saúde do paciente a longo prazo. Um estudo abrangente de 20252 indicou que pacientes que iniciam o uso de drogas Z apresentam um risco aumentado, cerca de duas vezes maior para problemas com drogas e 1,5 vezes maior para problemas com álcool, em comparação aos que não usam a medicação. Esse risco existe mesmo em pessoas sem histórico anterior de dependência e está associado a desfechos graves, que incluem não apenas o transtorno de uso de substâncias, mas também intoxicações não intencionais, óbitos e infrações criminais suspeitas relacionadas ao uso de substâncias.
Para minimizar os riscos, a ANVISA alterou em 2025 o tipo de prescrição do zolpidem, tornando o controle mais rigoroso devido ao risco de dependência e abuso.5 Portanto, é essencial que o uso desses medicamentos seja restrito ao curto prazo e acompanhado de supervisão médica constante. O monitoramento do comportamento do paciente em relação ao uso de substâncias deve ser contínuo, não apenas durante a vigência da prescrição, mas também após o início do tratamento, visando prevenir consequências graves de saúde e sociais.







