O consumo de álcool associado ao uso de medicamentos para disfunção erétil por homens jovens saudáveis

16 maio, 2010

Estudos alertam para os efeitos prejudiciais do uso recreativo de medicamentos para disfunção erétil associado ao consumo de álcool.

Recentemente foram desenvolvidos diversos medicamentos para o tratamento da disfunção erétil, como o sildenafil (Viagra®), vardenafil (Levitra®) e o taladafil (Cialis®), que são inibidores seletivos de isoformas da enzima fosfosdiesterase 5 (PDE5). Mediante estímulo sexual, sua ação resulta em maior relaxamento da musculatura peniana e maior acúmulo sanguíneo no corpo cavernoso, levando à ereção mais rígida.

Apesar de o uso ser recomendado apenas para indivíduos com disfunção erétil, o uso recreativo tem sido muito difundido entre os jovens. Nota-se que a maioria destes jovens não apresenta problemas de ereção utilizam tais medicamentos indevidamente, seja por diversão, curiosidade, insegurança ou por acreditarem que esses medicamentos aumentam o prazer durante o ato sexual.

No Brasil, foi realizado um estudo com jovens estudantes de medicina (N=167) que sugeriu o disseminado uso recreativo dos inibidores de PDE5: 9% relataram ter usado tais medicamentos sem indicação médica. Dentre estes indivíduos, 46,7% usaram mais de três vezes e 71,4% disseram ter consumido alguma bebida alcoólica na mesma ocasião em que utilizaram os inibidores de PDE5. De fato, muitas vezes, os jovens associam o álcool ao uso desses medicamentos, pois o álcool pode aumentar a autoconfiança e levar à desinibição social, o que facilitaria a busca de um parceiro e a conquista do mesmo. Além disso, há a crença de que o álcool melhora o desempenho sexual. Na realidade, dependendo da quantidade ingerida, o álcool pode diminuir a libido. Após o consumo dessa “mistura”, os jovens podem até se sentirem eufóricos, potentes e desinibidos. Por outro lado o álcool leva a uma diminuição da percepção de riscos e dificuldade na tomada de decisões. Assim, um dos maiores problemas decorrentes é que muitos desses jovens mantêm relações sexuais sem proteção, o que aumenta os riscos de ocorrer transmissão de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada, por exemplo.

O uso indevido e desnecessário desses medicamentos não traz benefícios ao usuário, ao contrário, pode promover efeitos adversos indesejáveis como dor de cabeça e priapismo. A prevalência de disfunção erétil entre os alcoólicos é elevada, e o álcool pode agravar uma disfunção erétil já existente. Apesar da interação entre os inibidores da PDE5 e o álcool não estar completamente esclarecida, alguns estudos mostraram não haver interações hemodinâmicas ou farmacocinéticas entre o sildenafil e álcool. No entanto, ainda não foi explorado se as mudanças hemodinâmicas durante o ato sexual, promovidas pelo sildenafil, podem ser potencializadas pelo álcool.
É importante alertar que, assim como o álcool, o uso de inibidores da PDE5 também tem sido relacionado a um maior comportamento sexual de risco; entretanto, ainda há divergências na literatura dependendo da população analisada. Ademais, os efeitos adversos dos inibidores da PDE5 em jovens ainda não foram explorados – alguns estudos sugerem que, em longo prazo, podem diminuir a fertilidade. Existem, ainda, os falsos inibidores da PDE5 – produzidos e comercializados de forma ilegal – devido à popularização dos efeitos benéficos dos medicamentos. Os falsos medicamentos podem levar a prejuízos ainda mais graves à saúde do indivíduo.

O fácil acesso a esses medicamentos e o desconhecimento de seus efeitos prejudiciais, associados às crenças e expectativas sexuais dos indivíduos acaba por aumentar a disseminação desse uso, sendo fundamental a divulgação dessas informações e também o incentivo a pesquisas científicas relacionadas.

Additional Info

  • Referências:

    Grinshpoon A, Margolis A, Weizman A, Ponizovski AM. Sildenafil citrate in the treatment of sexual dysfunction and its effect on quality of life in alcohol dependent men: preliminary findings. Alcohol Alcohol 42:340–346, 2007. IF: 2.137

    Harte CB, Meston CM. Recreational use of erectile dysfunction medications in undergraduate men in the United States: characteristics and associated risk factors. Arch Sex Behav 2010 (in press). IF: 2.294.

    Korkes F, Costa-Matos A, Gasperini R, Reginato PV, Perez MDC. Recreational use of PDE5 inhibitors by young healthy men: recognizing this issue among medical students. J Sex Med 5:2414–2418, 2008. IF: 5.393

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