English Version

Novo Relatório da OPAS: O Impacto do Álcool na Saúde e os Desafios das Políticas Públicas nas Américas

By CISA 28 Mai 2026

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) publicou recentemente um novo relatório sobre Álcool e Saúde nas Américas (2025)1, reunindo dados da OMS (2024) sobre consumo, mortalidade e impactos do álcool em 35 países da região. O documento alerta que o álcool continua sendo um importante fator de risco evitável para doenças, violência e mortes prematuras, além de destacar que as políticas públicas de controle ainda avançam de forma lenta e insuficiente diante da gravidade do problema nas Américas.

Segundo o novo relatório da OPAS, as Américas seguem entre as regiões que mais consomem álcool no mundo. A região mantém consumo médio superior a 7 litros de álcool puro per capita por ano, ocupando a segunda posição global, atrás apenas da Europa. 

Os dados mostram ainda que mais de 60% da população adulta da região consome bebidas alcoólicas regularmente. Entre os países com maiores níveis de consumo per capita estão Canadá (9,9 litros), Estados Unidos (9,6 litros) e Barbados (9,5 litros). O Brasil ocupa a 8a posição  (7,7 litros). 

O padrão de consumo episódico excessivo (binge drinking) também chama atenção. Em 2019, a prevalência média de episódios de ingestão excessiva de álcool foi de 25,7% na população geral das Américas, alcançando 35,9% entre homens e 15,8% entre mulheres. 

Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o cenário é particularmente preocupante: a prevalência de consumo de álcool atingiu 41,9%, tornando a região a segunda com maior consumo nessa faixa etária no mundo. O relatório destaca que esses números são “inaceitavelmente altos”, especialmente diante dos riscos ao desenvolvimento cerebral e neurocognitivo e da existência de legislações que proíbem a venda de álcool para menores de idade. 

Outro dado relevante é o predomínio da cerveja como bebida mais consumida nas Américas: ela representa 53,8% do consumo registrado de álcool na região, percentual superior ao observado em qualquer outra região da OMS. 

Álcool é responsável por centenas de milhares de mortes na região

O relatório da OPAS reforça que o álcool está associado a mais de 200 condições de saúde, incluindo doenças cardiovasculares, cânceres, cirrose hepática, transtornos mentais, violências e acidentes de trânsito. 

Nas Américas, o consumo de álcool foi responsável por aproximadamente 385.354 mortes em 2019, sendo 318.412 entre homens e 66.942 entre mulheres. 

A carga de doenças atribuíveis ao álcool também permanece elevada. A região registrou 32,7 mortes e 1.747 anos de vida ajustados por incapacidade (AVAD) perdidos por 100 mil habitantes, colocando as Américas entre as regiões mais afetadas do mundo. 

Entre os principais agravos relacionados ao álcool estão:

  • Doenças digestivas; 
  • Lesões não intencionais; 
  • Transtornos por uso de álcool; 
  • Doenças cardiovasculares; 
  • Neoplasias malignas; 
  • Violência interpessoal e acidentes de trânsito. 

O documento também destaca que o impacto do álcool extrapola a saúde individual, afetando famílias, comunidades, produtividade econômica e metas globais de desenvolvimento sustentável. 

Entre as recomendações centrais do documento está o fortalecimento das chamadas políticas SAFER, pacote técnico da OMS voltado à redução do consumo nocivo de álcool. Nesse contexto, a OPAS destaca o aumento de impostos e preços mínimos como uma das intervenções mais custo-efetivas disponíveis para governos. 

Segundo o relatório, políticas fiscais reduzem a acessibilidade econômica das bebidas alcoólicas, especialmente entre jovens e grupos mais vulneráveis ao consumo abusivo. Além disso, podem gerar arrecadação adicional para investimentos em saúde pública e prevenção.

Apesar disso, a adoção dessas medidas ainda é limitada nas Américas. Muitos países mantêm estruturas tributárias desatualizadas, sem correção pela inflação ou sem mecanismos capazes de reduzir efetivamente o consumo.

Brasil apresenta consumo elevado e padrões preocupantes

Com relação ao Brasil, os dados mostram que o país permanece acima da média global de consumo, registrando 7,7 litros de álcool puro per capita em 2019

Além disso, segundo o relatório:

  • 58,1% da população adulta relatou consumo atual de álcool; 
  • O consumo entre pessoas que bebem regularmente chegou a 13,3 litros por ano
  • Episódios de ingestão excessiva atingiram 20,9% da população adulta
  • Entre consumidores habituais, 35,3% relataram episódios de binge drinking

O documento projeta ainda crescimento do consumo brasileiro até 2030, reforçando a necessidade de fortalecimento de políticas públicas de prevenção e regulação. 

 A urgência de respostas integradas

Os dados apresentados pela OPAS reforçam que o consumo nocivo de álcool permanece como um dos maiores desafios de saúde pública nas Américas. A combinação entre alta prevalência de consumo, início precoce, fácil acesso e políticas regulatórias ainda insuficientes contribui para a manutenção de uma elevada carga de doenças e mortes evitáveis.

Nesse cenário, ampliar o acesso à informação científica de qualidade e fortalecer políticas baseadas em evidências tornam-se medidas essenciais para reduzir danos, proteger populações vulneráveis e apoiar decisões em saúde pública. 

Additional Info

  • Referências:
    1. Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Informe sobre la situación del alcohol y la salud en la Región de las Américas 2025. Washington, DC: OPAS; 2025. Disponível em: OPAS. Acesso em: 22 maio 2026.