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Performance de residentes em plantão médico após ingestão de álcool


Este trabalho faz um alerta sobre o prejuízo do excesso de trabalho entre médicos residentes no que diz respeito ao estado de atenção, o estado de alerta e sobre os reflexos e performance na direção.
O achado surpreendente é que o residente que tem um trabalho exaustivo (o que é muito comum em nosso meio), apresenta um comprometimento em alguns quesitos até pior do que o desempenho observado em residentes com trabalho leve e níveis de alcoolemia de 0,04 a 0,05 g%.
Os residentes não são informados sobre seus riscos pós-jornadas de trabalho exaustivas. Todos nós que vivemos em ambientes de Hospital-Escola e que temos papel de coordenação no ensino médico, nos tornamos co-responsáveis em eventuais acidentes provocados pelos residentes.
É natural supor que com estado de alerta menor, o número de erros médicos certamente aumentará, acarretando um problema ainda maior, pois envolve a vida de terceiros.

Comentário: Dr Maurício Gattaz, conselheiro científico do CISA


Privação do sono e fadiga têm sido motivos de grande preocupação no contexto da prática médica. Pesquisas sugerem que os médicos e plantonistas que desempenham uma rotina de trabalho de elevada demanda dormem 5 a 8 horas a menos de sono, apresentaram 50% a mais de falhas decorrentes de falta de atenção e aumento em 22% na incidência de erros médicos em setores críticos de cuidado básico em comparação aos médicos que executam uma rotina de trabalho mais reduzida. Ademais, há também o risco elevado para a ocorrência de acidentes automobilísticos entre residentes médicos em comparação aos não residentes.

Uma maneira interessante de avaliar os efeitos da perda de sono é por meio da comparação com o uso de álcool. Afinal, o álcool danifica a performance mesmo com baixos níveis de alcoolemia. Com 0,05g% (por 100 mL de sangue - 3 a 4 doses de álcool) de alcoolemia há aumento na autoconfiança, diminuição da inibição e do julgamento.

Os objetivos dos autores foram avaliar a performance dos médicos no período pós-chamada após demanda elevada de trabalho em comparação com a performance no período não-pós-chamada após demanda leve de trabalho com nível de alcoolemia de 0,04 a 0,05 g%. Para tal foram utilizados testes para medir a atenção, vigilância e performance simulada na direção de automóvel.

A amostra consistiu em 34 residentes em pediatria submetidos a duas sessões de avaliação e divididos em 4 condições: demanda leve, demanda leve com álcool, demanda elevada e demanda elevada com placebo. Os autores definiram demanda leve de trabalho como sendo 40 horas de atividade por semana somadas às chamadas de cobertura de colegas que se ausentaram por motivo de doença. A demanda elevada de trabalho foi caracterizada por 90 horas de atividade por semana (80 horas por semana após julho de 2003) e turnos de 34-36 horas consecutivas toda quarta ou quinta noite.

Sete dias antes do início das avaliações, o grupo de demanda leve registrou um total de 6 horas e 38 minutos de sono ao passo que o grupo de demanda elevada registrou 5 horas e 20 minutos. Na véspera do início das avaliações, o grupo de demanda leve registrou 6 horas e 37 minutos de sono e o grupo de demanda elevada registrou 3 horas e 2 minutos.

Os autores constataram que os residentes submetidos a demanda elevada de trabalho apresentaram maior perda de atenção, vigilância e cometeram mais erros de direção em comparação com o grupo de demanda leve de trabalho. O grupo de demanda elevada apresentou variações de velocidade nos testes de simulação de direção 30% superiores àquelas apresentadas pelo grupo de demanda leve com álcool, com manifestações de erros de direção e acidentes similares para ambos os grupos.

Assim, os autores concluíram que os residentes do grupo de demanda elevada de trabalho apresentaram desempenho igual ou inferior nos testes de atenção, vigilância e simulação de direção do que o desempenho observado com os níveis de alcoolemia de 0,04 e 0,05 g%.

Título: Neurobehavioral Performance of Residents After Heavy Night Call vs After Alcohol Ingestion
Autores: J. Todd Arnedt, Judith Owens, Megan Crouch, Jessica Stahl e Mary A. Carskadon
Fonte: JAMA,Vol 294, 1025-1033, No. 9, 2005
F.I.: 24,831
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