Perspectivas econômicas na pesquisa do alcoolismo
Comentário de Mauricio Gattaz, membro do Conselho Científico do CISA
“Neste artigo os autores analisam vários dados publicados na literatura médica sobre os custos econômicos do abuso do álcool, que chega a $ 185 bilhões de dólares, sendo a maior parte devido a perda de produtividade, seguida dos custos na área da saúde.
O impacto do aumento da taxação da bebida alcoólica no consumo já foi amplamente estudado.
Na Dinamarca, durante a Primeira Guerra Mundial, houve um aumento de 10 vezes no preço final da bebida alcoólica devido ao aumento da taxação. A queda no consumo de álcool per capta foi de 75%.
Resultados semelhantes foram obtidos em Chicago, Mineápolis, Reino Unido e Irlanda. Outros estudos mostraram que esta diminuição do consumo trouxe uma redução na mortalidade em acidentes automobilísticos.
Todos estes dados nos fazem pensar em uma política de saúde de ampla abrangência em relação ao abuso do álcool. O governo e a sociedade devem regularizar a disponibilidade do álcool, com restrição de dias, horários e locais, fiscalizar a idade mínima e punir os responsáveis pela venda proibida para menores, estudar a possibilidade do aumento de taxação, normatizar propagandas em veículos de comunicação e fazer campanhas educacionais de conscientização”.
A análise econômica é utilizada para estimar os custos dos problemas relacionados ao uso de álcool e para subsidiar os estudos sobre prevenção do alcoolismo e os seus métodos de tratamento. Esses custos são objeto de preocupação constante das autoridades competentes e do público em geral. Esse artigo procura analisar esse campo de estudo.
Os custos econômicos do abuso de álcool
Nas últimas duas décadas, 5 grandes estudos estimaram o custo econômico do abuso de álcool nos EUA tendo como abordagem o custo na saúde, o qual expressa em dólares o impacto multidimensional do álcool nos problemas da saúde. Mais de 70% dos gastos decorrentes do uso abusivo de bebidas alcoólicas foi atribuído à perda de produtividade (US$ 134,2 bilhões), incluindo perdas decorrentes de doenças relacionadas a esse uso (US$ 87,6 bilhões), morte prematura (US$ 36,5 bilhões) e crimes (US$ 10,1 bilhões). O restante dos custos incluiu gastos com a saúde (US $26,3 bilhões), assim como gastos administrativos e de propriedade relacionados a acidentes automobilísticos (US$ 15,7 bilhões) e gastos com a justiça (US$ 6,3 bilhões).
Distribuição do Peso dos Custos
Tendo como base dados de 1992, pesquisadores creditaram 45% do total do custo decorrente do uso de álcool aos indivíduos que fazem uso abusivo dessa substância e a seus familiares; 20% das gastos foram creditados ao governo federal, principalmente sob a forma de perdas referentes à cobrança de impostos decorrentes da perda de produtividade; 18% foi contabilizado nos governos estaduais e regionais. Os seguros particulares responderam por 10% das perdas, especialmente na área de gastos com a saúde e na cobertura de acidentes automobilísticos. As vítimas desses acidentes e de crimes relacionados ao uso de etanol (exceto homicídio) contabilizaram 6% do fardo.
Efeitos da mudança nos preços das bebidas alcoólicas e na taxação
Os estudos mostram que, a semelhança de outros produtos de consumo, o uso de bebidas alcoólicas declina com o aumento dos preços e, ao menos na teoria, a taxação e a implementação de outras políticas públicas que atingem o preço das bebidas podem influir no consumo total dessa substância.
Preços das bebidas alcoólica, taxação e consumo
Segundo Leung e Phelps (1993), o aumento de 1% nos preços acarreta na redução de 0,3% no consumo de cerveja, 1% no consumo de vinho e 1,5 % no consumo de destilados. As pesquisas também indicam que o aumento nos preços das bebidas alcoólicas em 10% reduzem em 8% o número de episódios de uso abusivo de álcool.
Impostos sobre o álcool e fatalidades no trânsito
Diversos estudos demonstram que a taxação das bebidas alcoólicas está relacionada a redução de taxas de fatalidades no trânsito.
Análise de custo do tratamento de alcoolismo
Em uma revisão com 141 estudos publicados sobre 36 diferentes tipos tratamentos do alcoolismo, não foi encontrada nenhuma relação entre custo e efetividade do tratamento. Contudo, há ensaios clínicos que indicam haver, para uma mesma efetividade obtida, diferentes custos no tratamento, com a terapia motivacional sendo a menos custosa.
Título: Economic Perspectives in Alcoholism Research
Fonte: Alcohol Alert - Number 51, 2004
(http://pubs.niaaa.nih.gov/publications/aa51.htm)